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| (Luma Nogueira de Andrade) |
Mesmo
na infância em Morada Nova, a 163 km de Fortaleza, a discriminação não
foi barreira para a cearense Luma Nogueira de Andrade, que nasceu com o
nome de João.
Filha de agricultores analfabetos, ela resolveu abrir
caminhos e enfrentar a pobreza e o preconceito com o conhecimento.
Aos
35 anos, Luma será em julho a primeira travesti a apresentar uma tese de
doutorado no Brasil. "Canalizei toda a energia para os estudos e,
assim, fui conquistando respeito de todos. Busquei no estudo uma
alternativa de vida melhor", diz.
A doutoranda em Educação pela
Universidade Federal do Ceará (UFC) estuda a realidade de travestis nas
escolas. Nas páginas da tese, ao relatar casos de estudantes que vivem
situações de aceitação ou total repressão, Luma faz um paralelo com a
própria história.
A cearense conta que, nas primeiras séries
escolares em Morada Nova, chegou a ser agredida por outros alunos por
"ser diferente e sempre preferir brincar com as meninas". "Uma vez,
quando cheguei na sala de aula chorando, ouvi da professora: 'Bem feito.
Quem mandou você ser assim?' ", recorda. O menino João não se sentia
bem para ir ao banheiro masculino e não podia frequentar o feminino.
"Sentia dores abdominais porque preferia não ir ao banheiro. Muitas
vezes, saia correndo para casa quando terminava a aula para urinar",
conta.Superação
Em vez de desistir de assumir quem era ou se
rebelar, Luma repetia para si mesma: "Eu vou superar isso". E, assim,
foi vencendo o preconceito dos alunos e professores, sendo sempre o
destaque da turma. "A estratégia era eu ser a melhor aluna.
Eu
fazia um acordo, eu ajudava, dava aulas particulares e eles me
aceitavam", diz. Aos 18 anos, quando passou no vestibular na primeira
tentativa para o curso de Ciências da Universidade Estadual do Ceará
(Ceará), no campus de Limoeiro do Norte, os olhares de reprovação por se
vestir com roupas femininas e estar maquiada não diminuíram. "Eu me
enganei. Na faculdade, eu sofri tanto quanto na educação básica".
De
cabelos compridos, mas ainda assinando como João, Luma voltou para a
sala de aula. Dessa vez, como professora de Ciências da Natureza. "No
primeiro dia, os diretores da escola ficaram atrás da porta para
observar como eu dava aula", lembra.
Ao contrário do que pensavam,
a professora era uma das mais queridas e reconhecidas pelo ensino. "Por
entender as dificuldades de ser diferente, eu me identificava muito e
me aproximava dos alunos. Muitos deles, de alguma forma, se viam
diferentes", conta.
Em 1998, Luma Andrade passou para concurso de
professor efetivo da rede municipal de Morada Nova e também começou a
ensinar em escolas estaduais e particulares.
Quando passou no Mestrado
em Desenvolvimento do Meio Ambiente em Mossoró, no Rio Grande do Norte,
apesar de ser vista por colegas de trabalho com "mau exemplo", não abriu
mão de continuar a ensinar e pediu transferência para uma escola de
Aracati, município mais próximo de onde estudava.
Com o título de
mestre, em 2003, ela prestou concurso para a rede estadual de ensino de
Aracati e, de quatro vagas, foi a primeira e única aprovada. Na hora de
ser lotada, os diretores disseram que não havia vagas e Luma teve de
pedir a intervenção da Secretaria de Educação do Estado (Seduc) para
assumir o cargo.
Em Aracati, Luma passou a dar palestras e aulas de
cursinho pré-vestibular e desenvolveu, em 2005, o projeto "Intimamente
Mulher" que incentivava alunas e professoras a fazer exames de
prevenção. A iniciativa ganhou o primeiro lugar no Estado e Luma recebeu
o prêmio no Ministério da Educação.
Mesmo com reconhecimentos e
títulos, a educadora continuava encontrando discriminação. Ao colocar
próteses de silicone nos seios, a travesti conta que foi enviada uma
denúncia à Secretaria de Educação. "Eles diziam que estava mostrando os
seios para os alunos, mas provei que não era verdade. Ia até com uma
bata para não chamar atenção". Em 2007, passou em uma seleção e mudou-se
para Russas para ser supervisora de 26 escolas estaduais em 13
municípios do Ceará. No cargo, a travesti pode acompanhar e ajudar mais
de perto as histórias de outras "Lumas" agredidas na escola ou em casa.
"Eu via nelas eu mesma. Toda a dificuldade que passei".
Mudança de nome
Aos
33 anos, Luma ainda tinha nos documentos o nome de João Filho Nogueira
de Andrade. No dia da mulher de 2010, ganhou o presente de ser a
primeira travesti a ter o direito de mudar os documentos sem a operação
de mudança de sexo no Ceará. As histórias de vitórias e de superações
que já chamaram atenção de cineasta e políticos não vão parar.
Luma não
se cansa de seguir e abrir os caminhos em defesa da diversidade humana.
"Quero combater todo o preconceito. Cada passo que eu dou, cada degrau
que eu subo, sei que estou contribuindo para mudar pessoas e não posso
deixar de buscar novos espaços. A própria travesti pensa que não existe
outro caminho sem ser a prostituição", afirma.
G1
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