Desde 2009, quando foram consideradas cancerígenas pela OMS, as câmaras de bronzeamento estão proibidas no Brasil
Câncer de pele: estudo afirma que cerca de 5,7% dos novos
casos de melanoma são causados pelo bronzeamento artificial
(Thinkstock)
O bronzeamento em câmaras artificiais está proibido no Brasil desde
2009. Na Europa e nos Estados Unidos, profissionais da área de saúde
tentam implantar a mesma lei há três anos — ainda sem sucesso. "A
legislação brasileira foi pioneira, é um exemplo a ser seguido", diz
Maritza Perez, professora da Universidade de Columbia, nos Estados
Unidos, e membro da Sociedade Americana de Cirurgia Dermatológica.
O
banimento das câmaras de bronzeamento artificial é defendido por
especialistas de todo o mundo durante o XIV Congresso Mundial de Câncer
de Pele, que ocorre entre os dias 1 e 4 de agosto em São Paulo.
CÂNCER DE PELE NÃO MELANOMA
Tipo de câncer mais comum no Brasil, esse câncer corresponde a 25% de todos os tumores malignos registrados no país. Apesar da sua alta incidência, apresenta baixa taxa de mortalidade. Atinge principalmente pessoas de pele clara ou com doenças de pele prévias. Estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca) apontam para 134.170 novos casos em 2012.CÂNCER DE PELE MELANOMA
O melanoma tem origem nas células produtoras de melanina, substância que dá cor à pele. Esse tipo de câncer de pele é menos frequente, sendo responsável por apenas 4% de todos os tumores malignos no país. Estimativas do Inca sugerem que, em 2012, teremos 6.230 novos casos da doença.
O Brasil é o único país do mundo em que as câmaras são completamente
proibidas. Em 2014, o estado de Nova Gales do Sul, na Austrália,
pretende se tornar o segundo local em todo o planeta a banir
completamente as máquinas. Segundo especialistas, a técnica de
bronzeamento artificial, que se baseia na emissão de raios ultravioleta,
provoca câncer. "Nos Estados Unidos, eles chamam essas máquinas de
camas de bronzeamento, o que é uma estupidez. Elas não passam de mesas
de radiação", diz Fernando Stengel, presidente da Fundação Argentina de
Câncer de Pele.
Desde 2009, as câmaras são consideradas cancerígenas pela Agência
Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, ligada à Organização Mundial
da Saúde (OMS). Um estudo publicado no último mês de julho na revista British Medical Journal
mostrou que 5,7% dos novos casos de melanoma são causados pelo
bronzeamento artificial. "Desde os anos 1970, houve aumento de 800% nos
melanomas entre mulheres e 450% entre homens. Uma pessoa que usa as
câmaras de bronzeamento quatro vezes por ano terá chances de desenvolver
carcinoma basocelular aumentadas em 11%", diz Maritza, defensora ativa
da proibição das máquinas nos Estados Unidos.
Mundo - Em 2010, o presidente Barack Obama implantou
um imposto de 10% sob o uso das câmaras. Desde então, pouco mudou no
país, onde mais de 30 milhões de pessoas usam o aparelho. Uma pesquisa
conduzida pela dermatologista Isabel Longo, professora da Universidade
Complutense de Madrid, na Espanha, mostrou que a legislação ainda
engatinha na Europa. "Dos 14 países que estudamos, cerca de 30% não
tinham nenhuma lei sobre o assunto", diz.
De acordo com o estudo de Isabel, 42,9% dos países não proibiam que
menores de idade praticassem o bronzeamento artificial, e 71,4% não
obrigavam que os usuários preenchessem um formulário de consentimento
antes de usar a câmaras. Além disso, 42,9% dos países permitiam o uso de
máquinas self-service, que funcionam com o simples depósito de moedas e
não necessitam do acompanhamento de um profissional. “A propaganda das
câmaras de bronzeamento só e regulada em 29,6% desses países. As
empresas podem falar que o bronzeamento artificial é tão seguro quanto o
do sol, o que é uma mentira", diz.
Lobby –
Apesar da pesquisa, Isabel Longo não acredita
que ainda seja possível banir completamente as câmaras da Europa. "Penso
que, em primeiro lugar, devemos lutar para regular o uso de menores de
idade e educar a população sobre os malefícios da técnica", diz. Só no
futuro, se essas campanhas falharem, a proibição deveria ser tentada.
"Em termos práticos seria muito difícil fazer isso". Isso porque existe
muita resistência quanto às mudanças na lei.
Rogério Neves, brasileiro diretor do Centro de Melanoma da Penn State
University, atuou na campanha que levou à proibição das máquinas no
Brasil. Agora que dá aulas nos Estados Unidos, ele faz parte de um grupo
de trabalho que tenta mudar a lei na Pensilvânia, mas enfrenta
dificuldades com a indústria local. "É uma briga feia, na qual
enfrentamos um lobby gigantesco. O mercado do bronzeamento artificial
move de 5 a 8 bilhões de dólares por ano", diz.
Mesmo no Brasil, a lei não foi aceita de maneira tranquila. Entre 2009 e 2010, dezenas de ações judiciais tentaram reverter a medida da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). "Agora a lei é comentada em todo o mundo, serve de argumento nos debates sobre o tema", diz Rogério. Segundo Maritza Perez, por mais que seja difícil aprovar a proibição em outros países, os dermatologistas não podem desistir da tarefa. "É um esforço admirável, porque é uma legislação cujo único objetivo é salvar vidas."
Guilherme Rosa
Veja.com
