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CARTA ABERTA - Por Sheila Raposo.
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19:18 |
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Falo em nome de minha família, um povo simples, generoso e alegre. Falo
em nome, principalmente, de um dos mais cativantes personagens dessa
família: o senhor Eudimar Eugênio Raposo, meu pai, nascido na cidade de
Monteiro, no dia 1º de setembro de 1951, cirrótico, duplamente atingido
por um acidente cardiovascular, cadeirante e enfrentando o frustrante e
dolorido caminho que o levará a um possível transplante de fígado.
Enquanto espera, ele entra e sai de crises de encefalopatia hepática,
que lhe deixam deprimido, em estado de demência e sem qualquer reação.
Eudimar foi cantor de “conjunto” (como se dizia então) da adolescência
até pouco tempo antes de passar em um concurso para ser funcionário do
Banco do Brasil, nos anos 1980. O feito trouxe uma felicidade sem
tamanho para todos da família. “Está com a vida garantida”, diziam. Eu
tinha então 8 anos incompletos e me lembro bem da euforia. Minha irmã
caçula tinha poucos meses de nascida, a do meio, 2 anos, e meu único
irmão havia completado 6. Éramos uma escadinha. Filhos que tiveram pouco
do carinho e da presença dos pais porque ambos eram muito jovens,
inexperientes e trabalhavam sem parar para o nosso sustento (além da
lida doméstica e, em alguns períodos, de ter também trabalhado fora,
minha mãe foi costureira a vida inteira).
Meu pai entrou para
o BB e foi um bom funcionário, apesar de o banco desconstruir, ano a
ano, e de forma cruel, a crença de que ele (ou qualquer outro bancário)
teria uma vida estável e gratificante naquele emprego. Em 1992, ele se
candidatou a vereador pela cidade que sempre amou com paixão. Depois de
um processo eleitoral com fortes indícios de fraude, ele perdeu. A fama
de locutor de rádio e artista local, o conhecimento que tinha daquele
povo, a generosidade – nada teve eficácia diante dos candidatos
concorrentes, que, em vez de projetos, ofereciam dinheiro e emprego.
A forte decepção o fez deixar a cidade. Pediu transferência para a
cidade de Cascavel, no Paraná, e partiu com uma família chorosa para se
aventurar no Sul do país. Não ficou lá nem dois anos completos. O banzo,
as dificuldades financeiras, o preconceito sofrido naquela região e o
arrependimento de ter deixado a terra natal não permitiram que essa
experiência se estendesse por mais tempo. Voltou para o Nordeste.
Como não havia mais vaga na agência de Monteiro, conseguiu
transferência para a pequena Pocinhos, cidade próxima a Campina Grande,
onde fixou residência. Ali, comprou, pela Previ, a casa com que sempre
sonhou. Terraço grande, vasto jardim, quintal propício a horta e pomar,
quatro quartos, salas espaçosas. Além da casa, o sítio que tinha em
Monteiro, antes mesmo de se mudar para Cascavel, continuava sob seus
cuidados.
E chega 1999, o ano que parece nunca acabar na vida
de minha família. Foi quando meu pai faliu. Foi quando meu irmão morreu.
Foi quando a porta da dor, do arrependimento e da depressão se
escancarou para a minha família.
Dois anos antes, em 1997, meu
pai, como tantos outros ex-funcionários do BB, aderiu ao programa de
demissão voluntária daquela instituição. Acreditou que poderia ser mais
feliz dedicando-se à vida de agricultor, investindo no sítio que já
tinha. Acreditou que conseguiria, depois de 17 anos como empregado, ser
empregador. Acreditou que a vida melhoraria, pois não estaria mais sob a
pressão psicológica e o assédio moral que o banco exercia sobre seus
funcionários e poderia se dedicar a algo que sempre amou: a terra.
Mas nada daquilo em que acreditou se tornou realidade. Seus
investimentos não deram certo, a ajuda alardeada pelo BB para quem
decidisse sair do banco e virar autônomo, não passou de conversa pra boi
dormir – e, pra piorar, o sócio que tinha o roubou.
Dívidas
começaram a aparecer e bens materiais tiveram que ser vendidos
gradualmente para pagá-las. Surgiram os agiotas e suas ameaças. Meu pai
se via perdido e não sabia pedir ajuda, não sabia como sair do buraco –
pelo contrário, vítima de depressão e com a autoestima no chão, ele
afundava cada vez mais. Em dois anos, sem pagar mais a prestação da casa
e sem conseguir vender o sítio, ele pensou em suicídio – e quase o
cometeu, mas meu irmão chegou na hora e conseguiu tirar-lhe o revólver
da mão.
E foi então que o pior aconteceu: meu irmão sofreu um
acidente e ficou uma semana na UTI, debatendo-se entre a vida e a morte.
No dia 17 de outubro de 1999, um domingo, tivemos a notícia de sua
partida. Aos 25 anos de idade, deixando um filhinho com dois anos
incompletos, ele se foi para sempre.
Existe dor pior para um
pai do que a perda de um filho? Não sou mãe, mas convivo de perto com
pais que perderam um filho e sei o que uma perda como essa representa.
Sei como essa dor dilacerante afeta a convivência em família. Ainda mais
uma família mergulhada em problemas financeiros...
Meu pai,
além de se culpar por ter entrado na conversa do banco e por ter
escolhido mal o sócio com quem pensou que iria construir uma vida nova,
passou a se culpar, também, por não ter prestado a assistência que,
acredita, poderia ter salvado a vida do filho. Entre tantas outras
coisas que deixou de pagar por estar falido, o plano de saúde foi uma
delas. E ele se martirizava porque o filho não tinha mais esse plano.
A forma que ele encontrou para superar tantas perdas e desilusões,
infelizmente, foi a fuga. A fuga por meio da bebida. Ele passou a viver
anestesiado. Não bebia ininterruptamente, portanto, não ficava bêbado.
Mas bebia o dia inteiro, de bicada em bicada. Começava às 4h. E, entre
um afazer e outro, engolia uma, e depois outra, e mais outra.
Percebia-se pelo cheiro que saía de sua boca. Foram mais de 10 anos
assim. O fígado dele – que, desconfiamos, já não era muito saudável –,
não aguentou.
Em 2007, veio o primeiro AVC, que não deixou
sequelas. Com o susto, ele prometeu não mais beber, mas cumpriu a
promessa por apenas seis meses. Pedíamos, implorávamos, conversávamos,
chorávamos... Não sabíamos mais o que fazer. Para acalmar nosso coração,
ele participava de algumas reuniões do grupo Alcoólicos Anônimos. Mas
continuava bebendo. Parecia um suicídio lento. E era. Um suicídio que
trazia sofrimento para todos ao seu redor, uma agonia constante, um
sombra sempre a nos sorver o otimismo, a nos tirar a vontade de seguir
em frente, de tocar projetos pessoais.
No final de 2009, ele
teve a primeira crise de encefalopatia hepática, doença comum a quem é
cirrótico. Mais uns dias de hospital, mais uma promessa. E começaram os
exames para entrar na fila de transplante de fígado. Ele dizia não mais
beber, mas sabíamos que bebia. Já não era o mesmo homem de raciocínio
rápido, que lia, que se interessava por aprender coisas novas. A única
atividade intelectual que fazia era preencher revistinhas de
palavras-cruzadas.
Em julho de 2010, veio o segundo AVC. Esse,
mais forte, deixou paralisado todo o lado direito do meu pai. No
hospital, ele pedia pra morrer. Não morreu, mas, desde então, nunca mais
andou. Não faz mais nada sozinho: não vai ao banheiro, não toma banho,
não come, não se veste, não se senta. Perdeu a autonomia completamente.
Um homem de 1,84, pesado, que sempre se virou só, agora dependendo de
todos para tudo.
E aí ele passou a fazer parte da lista de
espera por um transplante na Paraíba. Em três ocasiões, quase foi
operado. Quase. O quase sempre a nos perseguir. Num desses “quases”, ele
já estava na sala de cirurgia, com tudo pronto para a grande mudança, a
segunda chance tão esperada por todos nós. Então veio a horrível
notícia: o sangue dele reagiu a todos os tipos de sangue que havia no
hospital e também no hemocentro. Meu pai tinha anemia hemolítica, que
não havia sido detectada em exames anteriores, e não poderia ser
operado. Quase lá... Foi um baque estrondoso...
Durante o
tratamento da anemia, que durou 70 dias, ele foi parar na UTI em cinco
ocasiões, três delas em pré-coma. De uma dessas internações, saiu com
uma infecção urinária auto-imune. Mais remédio, mais tratamento. Tudo
isso o deixou abatido, cabisbaixo, cansado. Não acredita mais que sairá
dessa. Não quer mais sair da cama pra tomar sol no jardim ou ouvir
música. Para fazer a fisioterapia, é um custo. Quando dizemos para ele
se animar, que em breve o dia da cirurgia vai chegar, ele diz que não
quer mais ser. Não nos olha nos olhos. Não assiste mais à televisão,
cobre o rosto com o lençol, apresenta um semblante perdido e triste...
O transplante adiado não vem, por mais que rezemos, por mais que
sigamos, pé ante pé, toda a burocracia necessária, com todos os exames
dele em dia. E agora ficamos sabendo que os transplantes de fígado na
Paraíba estão suspensos, pois a equipe médica está em processo de
recredenciamento no Ministério da Saúde. Será que ficaremos em outro
“quase”? Disseram-nos que, nos próximos 15 dias, essa renovação já
estará no Diário Oficial e, a partir de então, o serviço voltará a ser
oferecido como antes. Mas o médico que atende o meu pai não foi tão
esperançoso. Pelo contrário, foi categórico: “Não há previsão de
realizarmos transplantes de fígado na Paraíba. Fizemos apenas dois, em
12 meses. Em Recife, o seu pai teria mais chances”.
Em
Recife... Será mesmo? Fomos uma vez para lá – e, olha só, que
complicação: um dos “quases” aconteceu exatamente quando o seu processo
estava na Capital pernambucana, pois, no mesmo período, chamaram-no para
fazer o transplante aqui, mas, quando viram que ele não estava mais
sendo atendido na Paraíba, o fígado foi para outro paciente. Será que
devemos nos arriscar de novo? E como levar aquele homem grande e pesado,
com capacidade tão reduzida de mobilidade, de Campina Grande a Recife
para fazer exames e consultas de acompanhamento, sem ter um ponto de
apoio naquela cidade e sem saber e deslocar dentro dela?
E por
que, meu Deus, a equipe de transplante daqui permitiu que o
credenciamento se vencesse para só então dar entrada em sua renovação?
Ou o problema não é esse, mas a falta de incentivo da Secretaria de
Saúde estadual? Como pode a Paraíba chegar a dispor de um serviço tão
especializado e não torná-lo ainda melhor? O que farão as famílias de
outros pacientes que também esperam por um fígado? Terão capacidade
financeira e logística para esse vaivém a Recife?
Em recente matéria jornalística, veiculada por um periódico local (a matéria pode ser lida aqui: http://migre.me/aT9ja),
o médico José Eymard, coordenador clínico de transplantes de fígado na
Paraíba, disse que sua equipe encaminhou a lista de pacientes daqui
quase toda para Recife e que, nos últimos meses, dois pacientes que
esperavam pelo procedimento morreram. O meu pai não foi encaminhado para
Recife, nem os outros dois que morreram. Por quê? Eram menos
merecedores? Ou esse encaminhamento deve partir das próprias famílias,
já tão fragilizadas e confusas em relação ao que fazer? Será esse o
destino do meu pai? Morrer sem ter uma segunda chance? Depois de tantas
dores, tantos tratamentos, tantas internações, nadar, nadar e morrer na
praia? Na vez em que fomos a Recife, o fizemos por conta e risco, sem
saber direito para onde ir, com quem falar, como chegar. Foi uma
agonia... E tememos passar por isso de novo, principalmente porque meu
pai está bem mais frágil agora.
Não seria mais justo e humano
se a equipe daqui, vendo o sofrimento dos pacientes e sabendo de suas
necessidades, entrasse em contato com a equipe pernambucana e
intermediasse essa transferência, já que não há previsão de transplante
na Paraíba? E nem seria preciso um pedido das famílias, pois isso é algo
que os médicos sabem melhor do que nós. Se fosse essa a política,
talvez aqueles dois pacientes não tivessem morrido...
O
“cantor” Eudimar Raposo vive hoje de uma aposentadoria do INSS e da
ajuda da família. É difícil. Mas ele viveria relativamente bem,
administrando as dívidas que contraiu desde que faliu – e que são
exorbitantes para alguém com suas posses – se estivesse com saúde. Se
voltasse a ser aquele homem alegre, da voz forte e melodiosa, que
ajudava a todos sem esperar nada em troca...
Se, por ser
filha e participar de todo esse processo doloroso há anos, eu não
estiver enxergando a saída para essa situação, por favor, peço que
alguém me dê uma luz!
O que devemos fazer? A quem recorrer?
Sheila Raposo
Fonte: O PIPOCO
( Com a palavra, os Srs. Deputados, Governador do Estado, candidatos a prefeito e todos aqueles que, em época de eleição vem buscar apoio político entre os filhos de Monteiro)
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