segunda-feira, 1 de outubro de 2012

CARTA ABERTA - Por Sheila Raposo.

Click Monteiro | 19:18 |


(Eudimar Raposo)
Meu nome é Sheila Raposo, paraibana de Monteiro, casada, sem filhos, jornalista em atividade, mestra em língua espanhola e estudante de letras. 
Aproveito o Dia Nacional da Doação de Órgãos e Tecidos para lançar esta Carta Aberta como quem dá um grito no precipício, esperando que ele ecoe e chegue aos ouvidos de alguém que possa me ajudar.
Falo em nome de minha família, um povo simples, generoso e alegre. Falo em nome, principalmente, de um dos mais cativantes personagens dessa família: o senhor Eudimar Eugênio Raposo, meu pai, nascido na cidade de Monteiro, no dia 1º de setembro de 1951, cirrótico, duplamente atingido por um acidente cardiovascular, cadeirante e enfrentando o frustrante e dolorido caminho que o levará a um possível transplante de fígado. Enquanto espera, ele entra e sai de crises de encefalopatia hepática, que lhe deixam deprimido, em estado de demência e sem qualquer reação.

Eudimar foi cantor de “conjunto” (como se dizia então) da adolescência até pouco tempo antes de passar em um concurso para ser funcionário do Banco do Brasil, nos anos 1980. O feito trouxe uma felicidade sem tamanho para todos da família. “Está com a vida garantida”, diziam. Eu tinha então 8 anos incompletos e me lembro bem da euforia. Minha irmã caçula tinha poucos meses de nascida, a do meio, 2 anos, e meu único irmão havia completado 6. Éramos uma escadinha. Filhos que tiveram pouco do carinho e da presença dos pais porque ambos eram muito jovens, inexperientes e trabalhavam sem parar para o nosso sustento (além da lida doméstica e, em alguns períodos, de ter também trabalhado fora, minha mãe foi costureira a vida inteira).

Meu pai entrou para o BB e foi um bom funcionário, apesar de o banco desconstruir, ano a ano, e de forma cruel, a crença de que ele (ou qualquer outro bancário) teria uma vida estável e gratificante naquele emprego. Em 1992, ele se candidatou a vereador pela cidade que sempre amou com paixão. Depois de um processo eleitoral com fortes indícios de fraude, ele perdeu. A fama de locutor de rádio e artista local, o conhecimento que tinha daquele povo, a generosidade – nada teve eficácia diante dos candidatos concorrentes, que, em vez de projetos, ofereciam dinheiro e emprego.

A forte decepção o fez deixar a cidade. Pediu transferência para a cidade de Cascavel, no Paraná, e partiu com uma família chorosa para se aventurar no Sul do país. Não ficou lá nem dois anos completos. O banzo, as dificuldades financeiras, o preconceito sofrido naquela região e o arrependimento de ter deixado a terra natal não permitiram que essa experiência se estendesse por mais tempo. Voltou para o Nordeste.

Como não havia mais vaga na agência de Monteiro, conseguiu transferência para a pequena Pocinhos, cidade próxima a Campina Grande, onde fixou residência. Ali, comprou, pela Previ, a casa com que sempre sonhou. Terraço grande, vasto jardim, quintal propício a horta e pomar, quatro quartos, salas espaçosas. Além da casa, o sítio que tinha em Monteiro, antes mesmo de se mudar para Cascavel, continuava sob seus cuidados.

E chega 1999, o ano que parece nunca acabar na vida de minha família. Foi quando meu pai faliu. Foi quando meu irmão morreu. Foi quando a porta da dor, do arrependimento e da depressão se escancarou para a minha família.

Dois anos antes, em 1997, meu pai, como tantos outros ex-funcionários do BB, aderiu ao programa de demissão voluntária daquela instituição. Acreditou que poderia ser mais feliz dedicando-se à vida de agricultor, investindo no sítio que já tinha. Acreditou que conseguiria, depois de 17 anos como empregado, ser empregador. Acreditou que a vida melhoraria, pois não estaria mais sob a pressão psicológica e o assédio moral que o banco exercia sobre seus funcionários e poderia se dedicar a algo que sempre amou: a terra.

Mas nada daquilo em que acreditou se tornou realidade. Seus investimentos não deram certo, a ajuda alardeada pelo BB para quem decidisse sair do banco e virar autônomo, não passou de conversa pra boi dormir – e, pra piorar, o sócio que tinha o roubou.

Dívidas começaram a aparecer e bens materiais tiveram que ser vendidos gradualmente para pagá-las. Surgiram os agiotas e suas ameaças. Meu pai se via perdido e não sabia pedir ajuda, não sabia como sair do buraco – pelo contrário, vítima de depressão e com a autoestima no chão, ele afundava cada vez mais. Em dois anos, sem pagar mais a prestação da casa e sem conseguir vender o sítio, ele pensou em suicídio – e quase o cometeu, mas meu irmão chegou na hora e conseguiu tirar-lhe o revólver da mão.

E foi então que o pior aconteceu: meu irmão sofreu um acidente e ficou uma semana na UTI, debatendo-se entre a vida e a morte. No dia 17 de outubro de 1999, um domingo, tivemos a notícia de sua partida. Aos 25 anos de idade, deixando um filhinho com dois anos incompletos, ele se foi para sempre.

Existe dor pior para um pai do que a perda de um filho? Não sou mãe, mas convivo de perto com pais que perderam um filho e sei o que uma perda como essa representa. Sei como essa dor dilacerante afeta a convivência em família. Ainda mais uma família mergulhada em problemas financeiros...

Meu pai, além de se culpar por ter entrado na conversa do banco e por ter escolhido mal o sócio com quem pensou que iria construir uma vida nova, passou a se culpar, também, por não ter prestado a assistência que, acredita, poderia ter salvado a vida do filho. Entre tantas outras coisas que deixou de pagar por estar falido, o plano de saúde foi uma delas. E ele se martirizava porque o filho não tinha mais esse plano.

A forma que ele encontrou para superar tantas perdas e desilusões, infelizmente, foi a fuga. A fuga por meio da bebida. Ele passou a viver anestesiado. Não bebia ininterruptamente, portanto, não ficava bêbado. Mas bebia o dia inteiro, de bicada em bicada. Começava às 4h. E, entre um afazer e outro, engolia uma, e depois outra, e mais outra. Percebia-se pelo cheiro que saía de sua boca. Foram mais de 10 anos assim. O fígado dele – que, desconfiamos, já não era muito saudável –, não aguentou.

Em 2007, veio o primeiro AVC, que não deixou sequelas. Com o susto, ele prometeu não mais beber, mas cumpriu a promessa por apenas seis meses. Pedíamos, implorávamos, conversávamos, chorávamos... Não sabíamos mais o que fazer. Para acalmar nosso coração, ele participava de algumas reuniões do grupo Alcoólicos Anônimos. Mas continuava bebendo. Parecia um suicídio lento. E era. Um suicídio que trazia sofrimento para todos ao seu redor, uma agonia constante, um sombra sempre a nos sorver o otimismo, a nos tirar a vontade de seguir em frente, de tocar projetos pessoais.

No final de 2009, ele teve a primeira crise de encefalopatia hepática, doença comum a quem é cirrótico. Mais uns dias de hospital, mais uma promessa. E começaram os exames para entrar na fila de transplante de fígado. Ele dizia não mais beber, mas sabíamos que bebia. Já não era o mesmo homem de raciocínio rápido, que lia, que se interessava por aprender coisas novas. A única atividade intelectual que fazia era preencher revistinhas de palavras-cruzadas.

Em julho de 2010, veio o segundo AVC. Esse, mais forte, deixou paralisado todo o lado direito do meu pai. No hospital, ele pedia pra morrer. Não morreu, mas, desde então, nunca mais andou. Não faz mais nada sozinho: não vai ao banheiro, não toma banho, não come, não se veste, não se senta. Perdeu a autonomia completamente. Um homem de 1,84, pesado, que sempre se virou só, agora dependendo de todos para tudo.

E aí ele passou a fazer parte da lista de espera por um transplante na Paraíba. Em três ocasiões, quase foi operado. Quase. O quase sempre a nos perseguir. Num desses “quases”, ele já estava na sala de cirurgia, com tudo pronto para a grande mudança, a segunda chance tão esperada por todos nós. Então veio a horrível notícia: o sangue dele reagiu a todos os tipos de sangue que havia no hospital e também no hemocentro. Meu pai tinha anemia hemolítica, que não havia sido detectada em exames anteriores, e não poderia ser operado. Quase lá... Foi um baque estrondoso...

Durante o tratamento da anemia, que durou 70 dias, ele foi parar na UTI em cinco ocasiões, três delas em pré-coma. De uma dessas internações, saiu com uma infecção urinária auto-imune. Mais remédio, mais tratamento. Tudo isso o deixou abatido, cabisbaixo, cansado. Não acredita mais que sairá dessa. Não quer mais sair da cama pra tomar sol no jardim ou ouvir música. Para fazer a fisioterapia, é um custo. Quando dizemos para ele se animar, que em breve o dia da cirurgia vai chegar, ele diz que não quer mais ser. Não nos olha nos olhos. Não assiste mais à televisão, cobre o rosto com o lençol, apresenta um semblante perdido e triste...

O transplante adiado não vem, por mais que rezemos, por mais que sigamos, pé ante pé, toda a burocracia necessária, com todos os exames dele em dia. E agora ficamos sabendo que os transplantes de fígado na Paraíba estão suspensos, pois a equipe médica está em processo de recredenciamento no Ministério da Saúde. Será que ficaremos em outro “quase”? Disseram-nos que, nos próximos 15 dias, essa renovação já estará no Diário Oficial e, a partir de então, o serviço voltará a ser oferecido como antes. Mas o médico que atende o meu pai não foi tão esperançoso. Pelo contrário, foi categórico: “Não há previsão de realizarmos transplantes de fígado na Paraíba. Fizemos apenas dois, em 12 meses. Em Recife, o seu pai teria mais chances”.

Em Recife... Será mesmo? Fomos uma vez para lá – e, olha só, que complicação: um dos “quases” aconteceu exatamente quando o seu processo estava na Capital pernambucana, pois, no mesmo período, chamaram-no para fazer o transplante aqui, mas, quando viram que ele não estava mais sendo atendido na Paraíba, o fígado foi para outro paciente. Será que devemos nos arriscar de novo? E como levar aquele homem grande e pesado, com capacidade tão reduzida de mobilidade, de Campina Grande a Recife para fazer exames e consultas de acompanhamento, sem ter um ponto de apoio naquela cidade e sem saber e deslocar dentro dela?

E por que, meu Deus, a equipe de transplante daqui permitiu que o credenciamento se vencesse para só então dar entrada em sua renovação? Ou o problema não é esse, mas a falta de incentivo da Secretaria de Saúde estadual? Como pode a Paraíba chegar a dispor de um serviço tão especializado e não torná-lo ainda melhor? O que farão as famílias de outros pacientes que também esperam por um fígado? Terão capacidade financeira e logística para esse vaivém a Recife?

Em recente matéria jornalística, veiculada por um periódico local (a matéria pode ser lida aqui: http://migre.me/aT9ja), o médico José Eymard, coordenador clínico de transplantes de fígado na Paraíba, disse que sua equipe encaminhou a lista de pacientes daqui quase toda para Recife e que, nos últimos meses, dois pacientes que esperavam pelo procedimento morreram. O meu pai não foi encaminhado para Recife, nem os outros dois que morreram. Por quê? Eram menos merecedores? Ou esse encaminhamento deve partir das próprias famílias, já tão fragilizadas e confusas em relação ao que fazer? Será esse o destino do meu pai? Morrer sem ter uma segunda chance? Depois de tantas dores, tantos tratamentos, tantas internações, nadar, nadar e morrer na praia? Na vez em que fomos a Recife, o fizemos por conta e risco, sem saber direito para onde ir, com quem falar, como chegar. Foi uma agonia... E tememos passar por isso de novo, principalmente porque meu pai está bem mais frágil agora.

Não seria mais justo e humano se a equipe daqui, vendo o sofrimento dos pacientes e sabendo de suas necessidades, entrasse em contato com a equipe pernambucana e intermediasse essa transferência, já que não há previsão de transplante na Paraíba? E nem seria preciso um pedido das famílias, pois isso é algo que os médicos sabem melhor do que nós. Se fosse essa a política, talvez aqueles dois pacientes não tivessem morrido...

O “cantor” Eudimar Raposo vive hoje de uma aposentadoria do INSS e da ajuda da família. É difícil. Mas ele viveria relativamente bem, administrando as dívidas que contraiu desde que faliu – e que são exorbitantes para alguém com suas posses – se estivesse com saúde. Se voltasse a ser aquele homem alegre, da voz forte e melodiosa, que ajudava a todos sem esperar nada em troca...

Se, por ser filha e participar de todo esse processo doloroso há anos, eu não estiver enxergando a saída para essa situação, por favor, peço que alguém me dê uma luz!

O que devemos fazer? A quem recorrer?


Sheila Raposo
Fonte: O PIPOCO


( Com a palavra, os Srs. Deputados, Governador do Estado, candidatos a prefeito e todos aqueles que, em época de eleição vem buscar apoio político entre os  filhos de Monteiro)
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