A SAÚDE DA PARAÍBA PEDE SOCORRO: internauta emociona ao relatar peregrinação em busca de serviços públicos de Saúde
A cada dia os noticiários informam a precariedade da Saúde no Serviço Público e não há especificação, se municipal ou estadual, a constatação é que ambos estão a desejar.
Só quem sabe é quem precisa pagar o preço de usar os serviços, cada vez mais inumano.
A quem compete o bom atendimento? Aos representantes políticos? A mão de obra disponibilizada para executar tais tarefas? Ou a todos?
A Constituição Federal, no entanto, destaca que a Saúde é um direito de todos e um dever do Estado.
No quesito equipe de profissionais, talvez esteja disponível uma das melhores do mundo, mas infelizmente a administração sobre suas carreiras deixa a desejar e acabam se tornando parte do atendimento ruim. A verdade é que dezenas, centenas ou talvez milhares de pessoas estejam enfrentando diariamente a mesma peregrinação porque passou a professora Rafaelle Ponce Leon.
Seu relato é comovente. Ela conta sua odisseia acompanhada do seu pai, vítima de um AVC e que precisava, no momento, de uma sonda naso-enteral. Depois de passar por vários hospitais ou serviços de Saúde públicos, entre eles, a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), em Manaíra, o Hospital Edson Ramalho e o Orto-Trauma, em Mangabeira, acabando em um hospital privado para poder realizar uma simples colocação de uma sonda.
Além dela, ao chegar no Ortotrauma, Rafaelle se deparou com outra vítima que também estava na mesma situação, ou seja, precisando da colocação de uma sonda naso-enteral, mas assim como ela, também já havia percorrido algumas unidades hospitalares, além das já citadas, o Trauminha e o Hospital 13 de Maio.
Se para a colocação de uma sonda é necessário que o ser humano seja humilhado em cada unidade hospitalar que procurar, fica constatado que os incontáveis impostos pagos pela sociedade, não estão valendo de nada. A Saúde nunca esteve tão deficiente e na iminência de um coma como atualmente. Urge a necessidade da saída do estado inerte, a Saúde está agonizando na Paraíba
Veja abaixo na íntegra o depoimento da professora:
Rafaelle Ponce Leon:
Papai, Everardo Ponce Leon, 77 anos, sequelado de AVC isquêmico, foi levado para a UPA ontem, 21/05/2012 pois havia retirado a sonda naso-enteral aproximadamente às 5hs da tarde, chegamos de fato à UPA exatamente durante a troca de plantão, fomos encaminhados para o Edson Ramalho mas, sabendo que esse procedimento poderia não ser realizado, pedi garantia. Pedi à Assistente Social que me desse por escrito um encaminhamento. Ela negou, disse que não poderia me dar por escrito mas, que ligaria para lá avisando que nós iríamos. Ela fez isso, só que quando conseguiu contato com o Edson, ficou sabendo que lá não faz mais esse tipo de procedimento (se, eu não tivesse insistido, teria ido até lá e teria sido mandada embora sem uma resolutividade).
Como a Assistente Social soube que não poderia ser lá, indagou à Assistente Social do Edson qual seria o encaminhamento e ela lhe disse que era o Orto-trauma, pois ele era referência! Ela então, ligou para o Orto-trauma, que não atendeu a ligação por minutos... Desistindo de realizar o contato (ela precisava atender outros casos, tinha um homem em observação na UPA que precisava ser encaminhado para um Hospital e a UPA ainda não havia conseguido, ela precisava dar prioridade àquele caso). Então, me disse, que fosse para o Orto-trauma que era certeza conseguir atendimento lá e fomos.
Quando chegamos ao Orto-trauma, na nossa frente chegou também, outro idoso com uma sonda naso-enteral saindo pela boca. O maqueiro o colocou numa cadeira de rodas e o posicionou no saguão do hospital para aguardar o "acolhimento". Quando fomos descer papai do carro, o maqueiro falou que não tinha mais cadeiras de rodas, nem macas pois estavam todas ocupadas. Ele me recomendou falar com a Enfermeira do Acolhimento para que ela o atendesse no carro mesmo. Ela foi e quando soube que era para colocar a sonda naso-enteral entrou para falar com o médico de plantão - que aliás, só tinha um plantonista para o hospital inteiro, que estava lotado! Isso, foi o que os seguranças de lá falaram), a Enfermeira voltou dizendo que não poderia fazer a colocação da sonda lá (inclusive, nem retiraram a sonda do outro idoso, que saia pela boca, causando-lhe extremo desconforto) eu não aceitei, lhe falei que estamos vindo de outro serviço e que disseram que o Trauminha que era o responsável por essa colocação. Ela então, disse que iria falar com o "Plantão Administrativo", e foi, só que voltou dizendo novamente que não faria! Eu, novamente me indignei e pedi para falar com esse "Plantão Administrativo", pois se lá não estava fazendo, o hospital deveria se responsabilizar em nos encaminhar para um local onde de fato realizassem, para que não ficássemos indo e voltando de serviço em serviço. Ela chamou a médica do tal Plantão Administrativo e eu falei com ela. Só que ela estava irredutível, disse taxativamente que não faria o procedimento. Um médico que ouvia a discussão, chegou por trás dela e disse : "Vamos fazer, só esse caso. É melhor!". Ela retrucou imediatamente e negou absolutamente dizendo "Eu não vou levar uma advertência!"
Poxa vida, enquanto isso, meu pai sentado no carro esperando atendimento há mais de uma hora. Essa médica, entrou e disse que ligaria para o Edson Ramalho e para a UPA pois estaria "compactuado" que estes atendimento seria realizados, quando de dia, nos PSF's e nos CAIS e, quando à noite, na UPA. Ela entrou ligou e voltou - com a mesma resposta, aqui não vai fazer!-.
Ela disse, que a UPA estava errada e que o Edson Ramalho estava errado, etc. Só, que eu pergunto "Se, na UPA fosse protocolo a realização desse procedimento, eles não saberiam? Teriam nos encaminhado para lá por qual motivo? Puro prazer de ferrar a vida do usuário?"
Depois de muito bater boca, resolvemos voltar para a UPA, na segurança de que tal colocação fosse, enfim, realizada.
Quando estávamos perto da UPA, papai começou a passar mal, vomitou, ficou mais branco do que é. Quando chegamos, puseram o senhorzinho numa cadeira de rodas e disseram que não tinham mais uma cadeira para sentar papai. Eu fui até a recepção, esperei e não aguentei a demora e disse a recepcionista que o Orto-trauma havia ligado para lá e era para agilizarem o atendimento de papai e do outro idoso. Foi um inferno, ter que "tratar à pão de ló" à todos para ver se na piedade fariam alguma coisa. Entrei e fui falar - novamente com a Assistente Social - ela mandou o maqueiro colocar papai em uma maca e levá-lo para um leito na unidade, enquanto isso, o outro idoso, continuava impaciente com aquele corpo estranho engasgado na garganta e ninguém fez NADA por ele até que eu comecei a pedir não só pelo meu pai mas, por ele!
Desesperador! Como pode uma desorganização GENERALIZADA de todo um sistema? O sistema está todo errado!
Quando a enfermeira responsável foi avaliar o procedimento logo disse "Eita, é sonda enteral!?! Aqui não tem!".
Puta merda, fiquei muito p. da vida. Viemos de um hospital que tinha o equipamento e não quiz fazer e chegamos na UPA que não tinha e - AGORA - queria fazer. Sabe o que aconteceu? A Assistente Social me perguntou "Você tem esse sonda? Pode trazer? Pode comprar?". MEU DEUS DO CÉU!
Entendo que ela - AGORA - quisesse de fato agilizar o procedimento - E TIRAR O DELA DA RETA - mas, à noite, onde eu poderia comprar uma sonda????? Não seria mais fácil o próprio serviço articular com outro que tivesse e levar, do que EU levar? E, o outro usuário, com o mesmo problema? Eu teria de comprar a dele também ou a família dele? É justo???
Liguei para minha irmã, e ela, como havia comprado à pouco tempo duas sondas, ainda havia uma em casa. E ela levou! Uffa! Graças ao Bom Deus conseguimos uma sonda!
Só que nenhum dos três enfermeiros que tentou, conseguiu colocar a sonda, ficavam colocando e tirando do nariz de papai e fizeram isso inÚmeras vezes! O pobre de papai, coitado mais parecia uma cobaia, será que eles nunca havia feito aquilo? Com certeza sim mas, a falta de prática (ali eles não fazem esse tipo de procedimento! Isso é fato!) fez que papai fosse submetido várias vezes, sem sucesso, à passagem da sonda. Fizeram um, dois Rx e viram que a sonda estava no Pulmão, logo, não poderia ser instalada nenhuma alimentação.
Quando a 4ª enfermeira chegou para colocar a sonda, eu não deixei! Pocha, quantas pessoas tentariam? Isso já chega a ser tortura! Nesse exato momento, a Assistente Social de lá chega com UMA sonda enteral para ser instalado no outro idoso. Aquela, 4ª enfermeira foi quem instalou a sonda, fizeram o RX e estava no lugar certo. Assim que ele chegou de volta, a sonda saiu - sozinha! Os movimentos peristáltico do esôfago expulsaram a sonda. Foram colocar novamente e eu, que já não aguentava mais, resolvi levar papai para um hospital particular! Mas, até quando o dinheiro vai dar? Isso é certo?
A Assistente Social da UPA ainda me disse, fique aqui, é melhor. Esse procedimento é caro, amanhã tem duas enfermeiras excelente (as que estavam lá não eram??!??) elas colocam.
De coração partido pelo sofrimento de papai, pedi "Alta à revelia" já que a única coisa que foi feita foi a glicemia capilar e tentaram colocar a sonda sem sucesso, fomos para um hospital particular. Ainda pedi para deixarem o acesso venoso no braço de papai pois havia acabado de fazer, tinham instalado quando eu estava assinando a "alta à pedido". Mas, não deixaram.
Há aproximadamente oito meses, eu indaguei “Que Paraíba é essa?”. Hoje, eu peço a Deus – Senhor tende piedade de nós!
Meu Deus, é difícil aceitar que isso ainda ocorra... Não tenho palavras para expressar tamanho descaso do poder público, estou – mais uma vez – indignada.
Eu pensei, sinceramente, que aquilo nunca mais fosse acontecer e aconteceu!
- Estou exausta, desiludida, inconformada... Me faltam palavras para descrever os fatos – é revoltante!
Meu Deus, meu Deus, que vida de cão! Ter e não ter!
A UPA é linda, tem aparelhos novos com tecnologia de ponta, a estrutura física é de fazer inveja a qualquer hospital particular mas, de quê adianta, ter e não poder usar??
Estou com NOJO desse “socialismo” que cuida de coisas e esquece das pessoas!
Quem está certo e quem está errado, para mim, não importa! Eu, realmente queria que papai tivesse saído de quaisquer de um desses estabelecimentos com sua sonda posicionada e que estivesse agora, em casa. Mas, não está é uma pena!
Iris e Fernanda Ponce Leon
Simone Duarte (siga-me no Twitter @sireporter)
PB Agora
Com perfil do FB de Rafaelle Ponce Leon
