Rio
de Janeiro, Botafogo, avenida Lauro Müller, número 96, apartamento
1409.
Neste endereço vive confortavelmente o militar reformado Dulene
Aleixo Garcez dos Reis, que, durante os anos de chumbo da Ditadura
Civil-Militar no Brasil, torturou e assassinou militantes da esquerda,
nas dependências do famigerado DOI-CODI na Tijuca.
Entre suas vítimas,
encontramos o jornalista e secretário-geral do Partido Comunista
Brasileiro Revolucionário (PCBR), Mário Alves.
Dulene Aleixo foi capitão da Infantaria do Exército em 1970 e serviu no
ano seguinte no Batalhão de Infantaria Blindada (BIB) de Barra Mansa.
Das 20 horas da noite do dia 17 de janeiro de 1970 até às 4 horas da
manhã do dia seguinte, Dulene participou da tortura de Mário Alves,
capturado no mesmo dia, o que culminou com a morte do dirigente por
perfuração do intestino e hemorragia interna provocadas por empalamento
com cassetete de madeira e estrias de ferro.
Demandando Memória, Verdade e Justiça, mais de 3 mil pessoas realizaram
uma manifestação de “Escracho” em frente ao prédio onde vive o
ex-torturador. A experiência, herdada de países como Argentina e Chile
(onde o protesto se chama Funa), tem sido praticada no Brasil por
organizações de juventude e de direitos humanos, como o Coletivo Tortura
Nunca Mais e o Levante Popular da Juventude, para pressionar a
recém-instalada Comissão da Verdade, do Governo Federal.
Após caminhada, desde o Campus Praia Vermelha da UFRJ, com amplo diálogo
com a população através de panfletagens, batuques e palavras de ordem,
os manifestantes instalaram uma grande assembleia na rua, em frente ao
apartamento do militar. Participaram, além das organizações já
mencionadas, a Articulação Nacional pela Memória, Verdade e Justiça,
movimentos populares, Via Campesina, partidos políticos, UNE, o mandato
do Deputado Marcelo Freixo e organizações de Direitos Humanos.
Para Ana Miranda, do Coletivo Tortura Nunca Mais, a divulgação dos casos
de abuso do poder público durante a Ditadura Civil-Militar é
imprescindível para interromper o ritmo de violência ainda levado pelas
polícias até hoje no país. “O engajamento jovem é espetacular, porque os
meus filhos, que agora tem mais de 30 anos, ficaram, assim como nós,
que sofremos com a Ditadura, marcados pelo silenciamento”.
Ana acrescenta: “essa garotada entende que é uma questão da sociedade
brasileira inteira, pois a tortura e a violência continua existindo e a
constitucionalidade da Lei de Anistia concedida pelo STF é um passe
livre à impunidade”. Ela alerta para o fato de que se não houver punição
e justiça em relação às torturas, desaparecimentos e mortes do período
de ditadura, a violência vai continuar.
Todas as armas: livros, flores, poemas
Com muita animação, os participantes do
ato promoveram um momento místico, em memória às vítimas da repressão
militar, no qual foi declamado e encenado uma poesia de autoria do
comunista Carlos Marighella e outra do próprio Mário Alves. Num ambiente
marcado pelo excessivo policiamento, a presença de outras vítimas
também foi reclamada pelos marchantes, a exemplo de Edson Luís, Manoel
Lisboa e Edgar Aquino Duarte, todos mortos nos porões da Ditadura.
Segundo os movimentos, a pauta da memória, verdade e justiça é unitária
na esquerda e os escrachos devem aumentar e se proliferar pelo país. “Os
setores conservadores estão se movimentando, a partir do marco da
criação da Comissão da Verdade. Nós dos movimentos populares também
estamos, pois acreditamos que a Comissão só vai funcionar se houver
ampla participação e pressão popular”, afirma Paulo Henrique, do Levante
Popular da Juventude.
“Apesar das críticas que temos à Comissão, ela é um passo importante,
mas ela só vai funcionar se houver participação popular nela. A Comissão
é uma etapa importante para que se faça justiça nesse país, mas não
precisamos esperar por ela: ações judiciais contra torturadores existem,
mas eles são protegidos pela Lei de Anistia”, avalia Ana Miranda. “O
Brasil é um país contraditório. Assina tratados internacionais contra a
tortura, mas tem uma lei que a anistia”, esclarece.
MST
