segunda-feira, 25 de junho de 2012

DPVAT: falsários mudam registros e inventam vítimas de trânsito para pedir indenizações

Click Monteiro | 10:03 |

Novo golpe no DPVAT

Foto: Registro de ocorrência falso
Foto: / Registro de ocorrência verdadeiro


Leda Benedicta Ferreira morreu aos 75 anos, de causas naturais. Foi vítima de insuficiência respiratória e edema agudo do pulmão. É o que consta de sua certidão de óbito. Mas, num registro feito na 33ª DP (Realengo) entregue à Seguradora Líder — responsável pelo consórcio do seguro DPVAT —, foi declarado que, em 18 de julho de 2011, ela foi vítima de um atropelamento em Realengo. A família pedia R$ 13 mil referentes ao valor de uma indenização que é paga pelo DPVAT a vítimas de acidentes de trânsito ou a seus herdeiros, em caso de morte.

Ao iniciar uma investigação sobre um grupo que estaria aplicando golpes para dar entrada no seguro DPVAT, o delegado Carlos Augusto Nogueira Pinto, titular da 33 DP, descobriu que, na verdade, o registro era falso. O número 033-08556/2011 foi copiado de um verdadeiro registro de difamação feito naquela delegacia.

Três falsos registros já foram detectados pelo delegado Carlos Augusto. Os golpes foram aplicados em fevereiro, julho e setembro do ano passado. No caso de Leda Benedicta, até sua certidão de óbito foi alterada. De vítima de insuficiência respitarória e edema agudo do pulmão, ela passou a ter como causa da morte traumatismo crânio encefálico com hemorragia das meninges, com ação contundente.

Outro dado trocado na certidão mostra que, no documento original, ela deixa quatro filhos como herdeiros. No falso, ela aparece com apenas um. A mudança para um herdeiro facilitaria a ação da pessoa que, em tese, receberia o valor da indenização do seguro, já que ela seria a única beneficiária.

Os responsáveis pelas fraudes não tiveram o cuidado de mudar alguns dados nos falsos registros. Nos três aparece, por exemplo, um carimbo de uma oficial de cartório de nome Valéria S. dos Santos, com matrícula n 286.120-7. A polícia já sabe que essa suposta inspetora não existe nos quadros da Polícia Civil.

Na dinâmica dos fatos, dados como nome do suposto policial militar que assumiu as ocorrências, do suposto atropelador, placa do carro e maneira como as vítimas foram mortas se repetem em todos os registros. Apenas os nomes dos autores são alterados. Tratam-se também de identificações fictícias, bem como seus endereços.

A polícia já identificou os parentes das supostas vítimas de atropelamento. E quer investigar se existe uma quadrilha por trás dos golpes ou se são os familiares que estão agindo isoladamente.
— Estamos investigando se esses parentes agiram de má-fé, pois sabem que existe a lei que os ampara para conseguir o seguro DPVAT. Eles também podem ter sido vítimas de pessoas aproveitadoras — afirmou o delegado.

Familiares prestam esclarecimentos

O delegado Carlos Augusto Nogueira Pinto está intimando todas as pessoas envolvidas a prestarem esclarecimentos. Ele quer investigar também se o grupo vem falsificando documentos de prováveis beneficiários. Do contrário, pode ficar provado que os próprios parentes das pessoas falecidas estão aplicando os golpes.

— Pelo que estamos analisando, em princípio, parece que as falsificações acontecem apenas nas certidões de óbitos e nos registros de ocorrência — disse o delegado.
Ao ser investigado, um neto de Leda Benedicta Ferreira alegou que não sabia da fraude. Ele já prestou declarações e apresentou na delegacia a verdadeira certidão de óbito da avó. Para o delegado, ele contou que também era vítima. Segundo o herdeiro de Leda, um homem ofereceu ajuda a seu pai, depois de saber que sua avó havia falecido. Ainda de acordo com o rapaz, esse homem disse que poderia dar entrada num seguro de vida para que eles recebessem uma indenização.

— É no mínimo estranho ele dar o número da própria conta onde o dinheiro seria depositado e dizer que não sabia que estava sendo ludibriado. Vamos analisar e investigar a participação direta dele no golpe — declarou o delegado Nogueira Pinto.
Em nota, a Seguradora Líder, administradora do Seguro DPVAT, informou que encaminha todas as suspeitas de fraudes às autoridades policiais para investigação criminal, apoiando e colaborando com o trabalho. As denúncias de fraudes podem ser feitas pelo 0800-022-1204 ou pelo site www.dpvatsegurodotransito.com.br.

Os erros do registro de ocorrência falso

No registro falso, a responsável pela investigação é a policial Valéria Silva dos Santos.
Há um carimbo com o nome da policial e a matrícula dela. Tudo falso.
A ocorrência descrita no registro falso não aconteceu. O episódio, com data, hora e local, é inteiramente inventado.

No mesmo registro, o autor do atropelamento é um homem que também não existe.
A vítima do atropelamento é uma mulher que morreu de causas naturais, no mesmo mês do suposto atropelamento.

O policial militar que aparece como testemunha no registro também não existe.

 

Paulo Carvalho 
Globo.com
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