Novo golpe no DPVAT
![]() |
| Foto: Registro de ocorrência falso |
![]() |
| Foto: / Registro de ocorrência verdadeiro |
Leda Benedicta Ferreira morreu aos 75 anos, de causas naturais. Foi
vítima de insuficiência respiratória e edema agudo do pulmão. É o que
consta de sua certidão de óbito. Mas, num registro feito na 33ª DP
(Realengo) entregue à Seguradora Líder — responsável pelo consórcio do
seguro DPVAT —, foi declarado que, em 18 de julho de 2011, ela foi
vítima de um atropelamento em Realengo. A família pedia R$ 13 mil
referentes ao valor de uma indenização que é paga pelo DPVAT a vítimas
de acidentes de trânsito ou a seus herdeiros, em caso de morte.
Ao
iniciar uma investigação sobre um grupo que estaria aplicando golpes
para dar entrada no seguro DPVAT, o delegado Carlos Augusto Nogueira
Pinto, titular da 33 DP, descobriu que, na verdade, o registro era
falso. O número 033-08556/2011 foi copiado de um verdadeiro registro de
difamação feito naquela delegacia.
Três falsos registros já foram
detectados pelo delegado Carlos Augusto. Os golpes foram aplicados em
fevereiro, julho e setembro do ano passado. No caso de Leda Benedicta,
até sua certidão de óbito foi alterada. De vítima de insuficiência
respitarória e edema agudo do pulmão, ela passou a ter como causa da
morte traumatismo crânio encefálico com hemorragia das meninges, com
ação contundente.
Outro dado trocado na certidão mostra que, no
documento original, ela deixa quatro filhos como herdeiros. No falso,
ela aparece com apenas um. A mudança para um herdeiro facilitaria a ação
da pessoa que, em tese, receberia o valor da indenização do seguro, já
que ela seria a única beneficiária.
Os responsáveis pelas fraudes
não tiveram o cuidado de mudar alguns dados nos falsos registros. Nos
três aparece, por exemplo, um carimbo de uma oficial de cartório de nome
Valéria S. dos Santos, com matrícula n 286.120-7. A polícia já sabe que
essa suposta inspetora não existe nos quadros da Polícia Civil.
Na
dinâmica dos fatos, dados como nome do suposto policial militar que
assumiu as ocorrências, do suposto atropelador, placa do carro e maneira
como as vítimas foram mortas se repetem em todos os registros. Apenas
os nomes dos autores são alterados. Tratam-se também de identificações
fictícias, bem como seus endereços.
A polícia já identificou os
parentes das supostas vítimas de atropelamento. E quer investigar se
existe uma quadrilha por trás dos golpes ou se são os familiares que
estão agindo isoladamente.
— Estamos investigando se esses
parentes agiram de má-fé, pois sabem que existe a lei que os ampara para
conseguir o seguro DPVAT. Eles também podem ter sido vítimas de pessoas
aproveitadoras — afirmou o delegado.
Familiares prestam esclarecimentos
O
delegado Carlos Augusto Nogueira Pinto está intimando todas as pessoas
envolvidas a prestarem esclarecimentos. Ele quer investigar também se o
grupo vem falsificando documentos de prováveis beneficiários. Do
contrário, pode ficar provado que os próprios parentes das pessoas
falecidas estão aplicando os golpes.
— Pelo que estamos
analisando, em princípio, parece que as falsificações acontecem apenas
nas certidões de óbitos e nos registros de ocorrência — disse o
delegado.
Ao ser investigado, um neto de Leda Benedicta Ferreira
alegou que não sabia da fraude. Ele já prestou declarações e apresentou
na delegacia a verdadeira certidão de óbito da avó. Para o delegado, ele
contou que também era vítima. Segundo o herdeiro de Leda, um homem
ofereceu ajuda a seu pai, depois de saber que sua avó havia falecido.
Ainda de acordo com o rapaz, esse homem disse que poderia dar entrada
num seguro de vida para que eles recebessem uma indenização.
— É
no mínimo estranho ele dar o número da própria conta onde o dinheiro
seria depositado e dizer que não sabia que estava sendo ludibriado.
Vamos analisar e investigar a participação direta dele no golpe —
declarou o delegado Nogueira Pinto.
Em nota, a Seguradora Líder,
administradora do Seguro DPVAT, informou que encaminha todas as
suspeitas de fraudes às autoridades policiais para investigação
criminal, apoiando e colaborando com o trabalho. As denúncias de fraudes
podem ser feitas pelo 0800-022-1204 ou pelo site www.dpvatsegurodotransito.com.br.
Os erros do registro de ocorrência falso
No registro falso, a responsável pela investigação é a policial Valéria Silva dos Santos.
Há um carimbo com o nome da policial e a matrícula dela. Tudo falso.
A ocorrência descrita no registro falso não aconteceu. O episódio, com data, hora e local, é inteiramente inventado.
No mesmo registro, o autor do atropelamento é um homem que também não existe.
A vítima do atropelamento é uma mulher que morreu de causas naturais, no mesmo mês do suposto atropelamento.
O policial militar que aparece como testemunha no registro também não existe.

