sexta-feira, 27 de abril de 2012

Operários de obra pública reclamam das condições de trabalho na PB

Click Monteiro | 21:36 |

Há problemas na alimentação, alojamento e carga de trabalho, diz operário.

Construtora responsável pela obra afirma que denúncias são inverídicas.

O feitor Adelson Pereira afirma que as condições de
trabalho são péssimas (Foto: André Resende/G1)
Operários da Via Engenharia, empresa responsável pela construção do futuro Centro de Convenções da Paraíba, procuraram o Ministério Público do Trabalho na quarta-feira (25) para reclamar das condições de trabalho e estadia que estão tendo nos últimos quatro meses. 

 Os funcionários dizem que a alimentação servida pela empresa é de péssimas condições, que a carga horária de trabalho vem sendo descumprida e reclamam da falta de estrutura no alojamento localizado na Avenida João Machado, no Centro de João Pessoa, onde 65 operários da construtora dividem espaço.


Diante das reclamações, um dos engenheiros da obra, Eduardo Miranda, considerou inverídicas as declarações dos operários. O engenheiro afirmou que há uma constante presença do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Civil da Paraíba (Sintricon) na obra e que, caso houvesse algo que promovesse tamanha insatisfação aos operários, o próprio sindicato teria entrado em contato com a administração da empresa.

"Fazemos tudo na obra conforme as leis determinam. Inclusive tivemos uma inspeção do Ministério Público do Trabalho há cerca de três meses, e não houve nenhuma irregularidade constatada com relação à alimentação ou condições de trabalho. Todas as nossas decisões são tomadas dentro da legalidade. Podemos tratar essas declarações (dos operários) como boatos ou inverdades", completou Miranda.

A maior parte dos operários da empresa que reclama das condições de trabalho é composta por trabalhadores de outros estados e do interior da Paraíba. O feitor Adelson Pereira da Silva, de 32 anos, é um deles. Natural de Floriano uma pequena cidade a 230 km de Teresina, no Píauí, o funcionário explica que deixou a sua família para vir até João Pessoa após ter recebido uma ótima proposta e garantias de boas condições de trabalho, o que segundo ele, não passaram de promessas.
"Estou acostumado a trabalhar em outras partes do Brasil e até do mundo. Já trabalhei em obras da Angola, Argentina e Paraguai, mas nunca tinha passado uma dificuldade tão grande como esta daqui da Paraíba. Aqui não sou tratado como trabalhador, em pleno século XXI, estou sendo tratado como um animal", desabafa Adelson.
Em pleno século XXI, estou sendo tratado como um animal"
 Adelson Pereira

Segundo o operário, a comida servida pela empresa é estragada e os responsáveis por servir a comida não trabalham com luvas ou toucas. "Não é porque nós somos 'peões' que podemos comer qualquer coisa ou de qualquer jeito, somos cidadãos, somos seres humanos", completou o feitor.

Para o secretário do Sintricon, Francisco Demontier Henriques, que acompanha semanalmente os operários da construção do Centro de Convenções para auxiliar no atendimento das reinvidicações dos trabalhadores junto a empresa, a reclamação da comida é recorrente embora seja improcedente.
"Já tinha chegado até nós essa reclamação, e nós inclusive inspecionamos várias vezes, tanto sozinhos como junto com o Ministério Público do Trabalho e vimos que a comida é feita por uma empresa terceirizada que prepara o almoço na hora. Talvez na preparação da comida, para cerca de 600 homens, possa ser que alguma das quentinhas venha com um carne mais mal passada, mas em nenhum momento encontramos comida estragada ou de má qualidade", argumenta Demontier.

Além da má alimentação, os funcionários afirmam que a empresa não dá nenhum tipo assistência aos alojados. Quando algum dos operários fica doente é preciso que algum colega auxílie tanto na compra de medicamentos quanto na busca por atendimento médico. "Quando peguei uma infecção intestinal por conta da comida passei três dias tendo que me virar sozinho. Lá na obra só me passavam um comprimido que não me curava por conta no dia seguinte eu tinha que comer comida estragada", disse Adelson.
 
Estrutura
Operários afirmam que tomam chuva enquanto
dormem no terraço da casa que serve de
alojamento (Foto: André Resende/G1)
 

De acordo com os operários, a Via Engenharia mantém dois alojamentos, um na Av. João Machado, onde moram 65 operários e outro na Ponta dos Seixas, que abriga cerca de 100 trabalhadores, que também passam pelas mesmas condições de trabalho que os operários do Centro. No alojamento do Centro, são 65 homens para apenas quatro banheiros, e algumas das camas são colocadas no terraço, expondo os trabalhadores à chuva. "Chego todos os dias as 18h, só consigo tomar banho depois das 20h porque não dá. Agora imagine você, 65 homens chegando de um obra e não tendo banheiro suficiente?", questiona o feitor Adelson Pereira.
 
Falta de apoio do Sindicato
 
O Sintricon da Paraíba foi chamado diversas vezes para que intervisse de alguma maneira nas condições de trabalho dos operários da Via Engenharia. Segundo os funcionários, o líder do sindicato afirma que alguns dos assuntos, como a alimentação oferecida pela empresa, não competem ao Sintricon.
"O Sindicato parece muito mais interessado em garantir os direitos da empresa do que os da gente. E é porque nós temos a contribuição descontada todos os meses. Nós simplesmente não temos poder de reclamar porque o sindicato não apóia a gente", completou o carpinteiro Francisco Wellisson, de 23 anos vindo do Piauí.

O secrerátio do Sitricon, Francisco Demontier, desmentiu as acusações feitas pelos operários de que o sindicato não dá atenção às reinvidicações. De acordo com Demontier, alguns trabalhadores estão insatisfeitos por algum motivo pessoal e acabam levando para o lado profissional. "Temos que investigar o que foi prometido para os trabalhadores vindos de fora, que na sua grande maioria são os que mais se mostram insatisfeitos. Muitas vezes os aliciadores de operários prometem benefícios para atrair a mão de obra e no final das contas, quando o trabalhador inicia a obra, percebe que o prometido não foi cumprido. É normal que fiquem insatisfeitos, mesmo que em alguns casos a empresa não tenha culpa", acrescentou o secretário do Sintricon. 

Do G1 PB
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