Há problemas na alimentação, alojamento e carga de trabalho, diz operário.
Construtora responsável pela obra afirma que denúncias são inverídicas.
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| O feitor Adelson Pereira afirma que as condições de trabalho são péssimas (Foto: André Resende/G1) |
Os funcionários dizem que a alimentação servida pela empresa é de péssimas condições, que a carga horária de trabalho vem sendo descumprida e reclamam da falta de estrutura no alojamento localizado na Avenida João Machado, no Centro de João Pessoa, onde 65 operários da construtora dividem espaço.
Diante das reclamações, um dos engenheiros da obra, Eduardo Miranda,
considerou inverídicas as declarações dos operários. O engenheiro
afirmou que há uma constante presença do Sindicato dos Trabalhadores da
Indústria da Construção Civil da Paraíba (Sintricon) na obra e que, caso
houvesse algo que promovesse tamanha insatisfação aos operários, o
próprio sindicato teria entrado em contato com a administração da
empresa.
"Fazemos tudo na obra conforme as leis determinam. Inclusive tivemos
uma inspeção do Ministério Público do Trabalho há cerca de três meses, e
não houve nenhuma irregularidade constatada com relação à alimentação
ou condições de trabalho. Todas as nossas decisões são tomadas dentro da
legalidade. Podemos tratar essas declarações (dos operários) como
boatos ou inverdades", completou Miranda.
"Estou acostumado a trabalhar em outras partes do Brasil e até do
mundo. Já trabalhei em obras da Angola, Argentina e Paraguai, mas nunca
tinha passado uma dificuldade tão grande como esta daqui da Paraíba.
Aqui não sou tratado como trabalhador, em pleno século XXI, estou sendo
tratado como um animal", desabafa Adelson.
Em pleno século XXI, estou sendo tratado como um animal"
Adelson Pereira
Segundo o operário, a comida servida pela empresa é estragada e os
responsáveis por servir a comida não trabalham com luvas ou toucas. "Não
é porque nós somos 'peões' que podemos comer qualquer coisa ou de
qualquer jeito, somos cidadãos, somos seres humanos", completou o
feitor.
Para o secretário do Sintricon, Francisco Demontier Henriques, que
acompanha semanalmente os operários da construção do Centro de
Convenções para auxiliar no atendimento das reinvidicações dos
trabalhadores junto a empresa, a reclamação da comida é recorrente
embora seja improcedente.
"Já tinha chegado até nós essa reclamação, e nós inclusive
inspecionamos várias vezes, tanto sozinhos como junto com o Ministério
Público do Trabalho e vimos que a comida é feita por uma empresa
terceirizada que prepara o almoço na hora. Talvez na preparação da
comida, para cerca de 600 homens, possa ser que alguma das quentinhas
venha com um carne mais mal passada, mas em nenhum momento encontramos
comida estragada ou de má qualidade", argumenta Demontier.
Além da má alimentação, os funcionários afirmam que a empresa não dá
nenhum tipo assistência aos alojados. Quando algum dos operários fica
doente é preciso que algum colega auxílie tanto na compra de
medicamentos quanto na busca por atendimento médico. "Quando peguei uma
infecção intestinal por conta da comida passei três dias tendo que me
virar sozinho. Lá na obra só me passavam um comprimido que não me curava
por conta no dia seguinte eu tinha que comer comida estragada", disse
Adelson.
Estrutura
Operários afirmam que tomam chuva enquanto
dormem no terraço da casa que serve de
alojamento (Foto: André Resende/G1)
dormem no terraço da casa que serve de
alojamento (Foto: André Resende/G1)
De acordo com os operários, a Via Engenharia mantém dois alojamentos, um na Av. João Machado, onde moram 65 operários e outro na Ponta dos Seixas, que abriga cerca de 100 trabalhadores, que também passam pelas mesmas condições de trabalho que os operários do Centro. No alojamento do Centro, são 65 homens para apenas quatro banheiros, e algumas das camas são colocadas no terraço, expondo os trabalhadores à chuva. "Chego todos os dias as 18h, só consigo tomar banho depois das 20h porque não dá. Agora imagine você, 65 homens chegando de um obra e não tendo banheiro suficiente?", questiona o feitor Adelson Pereira.
Falta de apoio do Sindicato
O Sintricon da Paraíba foi chamado diversas vezes para que intervisse de alguma maneira nas condições de trabalho dos operários da Via Engenharia. Segundo os funcionários, o líder do sindicato afirma que alguns dos assuntos, como a alimentação oferecida pela empresa, não competem ao Sintricon.
"O Sindicato parece muito mais interessado em garantir os direitos da
empresa do que os da gente. E é porque nós temos a contribuição
descontada todos os meses. Nós simplesmente não temos poder de reclamar
porque o sindicato não apóia a gente", completou o carpinteiro Francisco
Wellisson, de 23 anos vindo do Piauí.
O secrerátio do Sitricon, Francisco Demontier, desmentiu as acusações
feitas pelos operários de que o sindicato não dá atenção às
reinvidicações. De acordo com Demontier, alguns trabalhadores estão
insatisfeitos por algum motivo pessoal e acabam levando para o lado
profissional. "Temos que investigar o que foi prometido para os
trabalhadores vindos de fora, que na sua grande maioria são os que mais
se mostram insatisfeitos. Muitas vezes os aliciadores de operários
prometem benefícios para atrair a mão de obra e no final das contas,
quando o trabalhador inicia a obra, percebe que o prometido não foi
cumprido. É normal que fiquem insatisfeitos, mesmo que em alguns casos a
empresa não tenha culpa", acrescentou o secretário do Sintricon.
Do G1 PB

