Houve um período em que o futebol monteirense estava com a corda toda. A Socremo tinha sido campeã Paraibana da segunda divisão e disputava a primeirona de forma brilhante.
Acontece que para uma cidade com pouco recurso disputar um torneio daquela envergadura era feito pobre em festa de rico, e já no inicio da disputa a receita do excelente time de futebol estava deteriorada.
Desistir no meio da disputa não fazia parte das tradições monteirenses. Então a diretoria, capitaneada pelo presidente Edvaldo Bezerra e o vice Marivaldo Berto, achou por bem realizar um bingo em favor da equipe. Vilma Bezerra, mãe deste que vos escreve, conseguiu os prêmios do sorteio.
O problema é que na Paraíba a realização de bingos não era permitida. Consultado, o então superintendente de Policia Aristeu Chaves afirmou que, se provocado, faria valer a lei. A saída encontrada foi realizar o bingo na divisa da Paraíba com Pernambuco, no Distrito de Pernambuquinho.
E assim foi feito. O caminhão que servia de palco foi estacionado dois palmos dentro do Estado vizinho. O povo monteirense, que adorava a Socremo compareceu em massa; o pessoal das cidades vizinhas também. Só nas missões de Frei Damião se viu tanta gente.
Em cima do palco improvisado, estavam Edvaldo Bezerra, Marivaldo Berto, o supervisor Wildmarck e o diretor Nelsinho de Barra-Preta, que subiu ao palco levemente embriagado. Para abrilhantar a festa e chamar o bingo, o “coroné” Simorion Matos, radialista, publicitário, político e membro da diretoria.
O presidente Edvaldo, de forma emocionada e com um palavreado bonito, agradecia a presença de todos, findando o blablablá ao se referir à venda de todas as cartelas. O filósofo Matias de Zacarias, desconfiado e bem embaixo do caminhão, o interrompeu dizendo:
– Eita, “inchesse” o rabo, num foi, Negão?
O locutor, adaptando a contagem aos costumes locais, e com uma euforia contagiante, com seu vozeirão deixava a platéia em êxtase:
– De rrroooooomboo: quareeeeenta! As peeeeernas de Zé Grampão: ooooonze!
A chamada não foi muito longe. Não demorou muito e um coro de umas cem pessoas ecoou nos céus de Pernambuquinho:
– Batiiiiiii!!!
Incrédulo com a quantidade de pessoas que diziam ter batido, o locutor bradou:
– Só pode ter sido algum engano!Mas nada que a diretoria não solucione... E vamos adiante para vermos quem a sorte agora vai abraçar!
– Atençãaaaaao, galeeeeeera! Dois patinhos na Lagoa: viiinte e dooois! Começou o jogo: núúúúúmero um!
A seqüência não andou muito. O bravo locutor mais uma vez foi surpreendido por um coro mais forte ainda, de cerca de 150 pessoas:
– Batiiiiiiiii!
Se embaixo o furdunço estava grande, em cima do palco os nervos já estavam à flor da pele.
Simorion, passando a mão na barriga, olha para Edvaldo e indaga:
– O que tá acontecendo, Negão?
– Não to entendendo nada...
– Será o benedito? – disse Nelsinho.
– Ô Nelsinho, não era pra tu ter bebido antes de vir não! – reclamou Marivaldo.
– Se preocupe não, Marivaldo. Com um aperreio desses não tem cana que agüente. Infelizmente, eu já to bonzinho – retrucou Nelsinho.
– Não to entendendo nada...
– Será o benedito? – disse Nelsinho.
– Ô Nelsinho, não era pra tu ter bebido antes de vir não! – reclamou Marivaldo.
– Se preocupe não, Marivaldo. Com um aperreio desses não tem cana que agüente. Infelizmente, eu já to bonzinho – retrucou Nelsinho.
Enquanto isso, o supervisor Wildmarck tentava, em vão, acalmar os ganhadores, que estavam quase subindo no caminhão, exigindo a entrega dos prêmios. Wildmarck orientava a turma a formar uma fila, que de tão grande já estava a perder de vista.
Simorion, macaco velho, pelo microfone tentava acalmar a multidão, dizendo que nenhum ganhador saía sem prêmio. Já Edvaldo confabulava com Marivaldo, na esperança de que o milagre da multiplicação dos pães se repetisse.
O danado é que, ao reiniciar o show, o vozeirão e o entusiasmo de Simorion já tinham murchado. Chamado os números do último sorteio, parecia um cortejo fúnebre:
- Cinco, oitenta e oito, trinta e três...
A cada três números chamados, Simorion olhava para os demais integrantes da diretoria, afastava o microfone e perguntava:
– Vocês estão vendo algum movimento?
A triste chamada transcorria normalmente, e só foi parada pelo maior de todos os gritos da tarde-noite. Duzentas pessoas em uma só voz gritaram:
- Baatiiiiiiii!
- E agora, meu Padim Ciço? – apelou Simorion.
Nestas alturas, todos os 450 ganhadores balançavam o caminhão onde estavam os organizadores, protestando pelos prêmios.
Quatro horas depois de terminado o bingo, Simorion vai chegando à antiga Churrascaria Tocaia, em busca de uma dose de uísque para acalmar os nervos, quando Tõe da Tapioca pergunta:
– E aí, Simorion, o bingo prestou?
– Prestou! Eu escapei!
Obs.: A confusão foi provocada pelo programador, que efetuou o programa para cinqüenta mil cartelas, mas só imprimiu cinco mil. Todavia, a habilidade e credibilidade da diretoria foi fundamental para a solução do impasse. Ao final todos concordaram com a realização do “segundo turno” do bingo, restrito aos os 450 ganhadores e realizado em frente ao estádio municipal “O Feitosão”, em Monteiro.
